SIMONE ROCHA: o feminino, o tecido e a memória

O inverno da estilista é pautado na poética de Louise Bourgeois

A estilista irlandesa Simone Rocha é um dos nomes mais aguardados na Semana de Moda de Londres. Com pouco mais de trinta anos de idade e alguns prêmios na estante (ela foi eleita a estilista de moda feminina de 2016 pela Câmara de Moda Britânica), Simone conseguiu demonstrar em seus anos de carreira como pensar o feminino é o centro de suas criações.

A formação inicial de Simone foi em sua Dublin natal, onde cresceu em meio ao ateliê de seu pai, o também estilista John Rocha. Após terminar sua graduação, a estilista entrou para o mestrado em moda da prestigiada Central St. Martins, em Londres, mesma instituição que formou nomes como Stella McCartney, John Galliano e Alexander McQueen.

Em sua última coleção, desfilada no dia dezesseis de fevereiro, Simone Rocha mostrou em quarenta e quatro entradas a história que criou para o seu outono/inverno 2019.

Inspirada pelas dualidades do feminino, a estilista trabalhou com sobreposições de transparências, bordados e a justaposição da lingerie em contraste com vestidos fluidos.

Acessórios de cabelo que se assemelhavam a coroas e sapatos de couro garantiam o contraste entre o leve e o pesado, o sonho e a realidade.

Mulheres de diferentes idades, etnias e corpos vestiam roupas que podem estar no guarda roupa de qualquer geração da mesma família. Por mais que as peças possuam uma feminilidade pueril intrínseca, a estilista constrói significados misturando texturas e tecidos, bordados e estamparia digital, afirmando que sua inspiração vem de uma mulher extremamente contemporânea.

A discussão do feminino presente no trabalho da artista francesa Louise Bourgeois ajudou Simone Rocha a construir a base gráfica e conceitual da coleção. A estampa em forma de teia de aranha foi desenvolvida em parceria com o instituto da artista falecida em 2010 e está presente em vestidos e casacos.

Vermelho, preto e branco predominam dentre as roupas, dando vez em alguns pontos a estampas florais multicoloridas, diluídas a partir das tapeçarias que Louise Bourgeois criou nos seus últimos anos de produção artística.

Assim como Louise Bourgeois, Simone Rocha faz em suas criações uma reflexão profunda sobre o papel e o poder da mulher, redesenha suas memórias e discute padrões. A moda flerta com a arte, a trama do tecido é relacionada ao humano, os sonhos e os medos são vestiveis.